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VIRTUALIDADES

Ela foi, com a família, à cerimônia de graduação. Fez as unhas, arrumou o cabelo, foi maquiada. Vestiu um vestido com alças de metal (correntes).

 

Antes da sessão de fotos, da primeira parte da festa, uma das alças se rompeu. O pai teve que ir a sua casa, trazer um alicate pra arrumar, pois não havia outra roupa. Ele foi e tudo se ajeitou. A sessão de fotos aconteceu e, quem soube, foram os familiares.

 

A segunda parte foi a colação de grau. Vestiu uma beca em número maior. Esforçou-se para não cair. Havia um lugar vago no palco. Sentou-se, em frente ao ventilador. O seu penteado se desmanchou em questão de minutos. Foi chamada para receber o canudo. Quase caiu no momento em que recebeu o diploma, mas não aconteceu.

 

Curiosamente, o sorriso permanecia. Usou aparelho ortodôntico por 3 anos e foi retirado durante o período da formatura. "Eu sei que está tudo difícil, mas não quero saber disso. Quero mais é sorrir" - pensou a formanda.

 

"Será que ela sabe que, terminado o curso, se inicia a busca por emprego? Que a emissão do diploma leva tempo? Que, para conquistar um salário digno, mestrado e PHD são exigências? Será que conto isso a ela, ou deixo que descubra? Algo me diz que ela já sente isso" - pensou o bem-te-vi, sem cerimônia.


 




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Eis que Jesus,

descido do alto,

pegou a sua pena

e usou sua licença poética.

E disse: 

"Eu sou especial,

Sou autíssimo!"










Poesia produzida no Centro de Atenção Psicossocial de Formiga (CAPS) Formiga- Minas Gerais






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Ilustração de Alice França Dias




O jardim era todo colorido,
com diversas espécies de flores.
Tinha o cravo contido
e aquelas multicores.


Uma era peculiar:
a dama-da-noite.
Durante o dia, a dormitar
e, a perfumar, dizendo boa noite!

A poesia mudou sua rima.
Os versos reversos,
para trazer de volta a alegria do jardim.


O jeito da bela dama incomodava as outras.
O girassol, que sempre seguia o sol, 
à noite dormia. 
"Como pode ficar acordada e ativa à noite?"

A dama-da-noite foi ficando triste,
a ninguém prejudicava.
Não sabia ser de outro jeito.
Vendo aquilo, a dona do jardim,
arrumou um canto perfeito.

Como adorava o seu perfume,
colocou-a num lugar de destaque,
próximo à sua janela.
Não guardou mágoa nem nada,
pois agora poderia ser ela.
E era o que bastava.

A propósito, 
há quem critique poesia sem rima,
sem um verso saber escrever.
Para esse, somente uma flor perfumada
em sua lapela, para aprender a ser feliz
e gostar de ler!

E até aqui, rimas à parte,
a história floresceu,
o jardim se reergueu.
A dama, embora feliz,
foi mais feliz perfumando o mundo!




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Às vezes chegava de mansinho,
rasteiro, desconfiado. 
Aí era o "Pretinho"
sempre muito amado!

"Cafú" era o seu nome,
quando queria pão. 
Fazia cara de fome,
um sim ao invés de um não. 

Descia a rua como "Tiziu",
apressado para dormir.
Muita gente o viu!
Famoso, a todos fazia sorrir!

Cada nome retratava
um traço da sua personalidade.
Falar, não falava,
mas era um cão de verdade!





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"O leiteiro" (grafite sobre Canson)


 

Dona Maria, dona de casa trabalhadora, mãe zelosa, e também, muito observadora.

Certo dia, ao sair para comprar leite do seu João, notou algo diferente nele:

- Bom dia, seu João!

- Bom dia, dona Maria!

- Vou querer um litro e meio, tá?

- Tudo bem.

Dito isso, seu João virou-se para o banco do passageiro de sua pickup, onde estava o galão de leite, para atender ao pedido. Dona Maria percebeu que ele estava triste e, depois de pegar a vasilha cheia de leite que estendeu para ela, o seu rosto surgiu na janela apático, com uma tonalidade muito particular: “um amarelo vivo”.

A dona de casa o interpelou:

- Seu João, estou percebendo que o senhor está um pouco triste... por acaso você está assim, meio doente?

- Não, Dona Maria, estou me sentindo ótimo! Por quê?

- Não, por nada.

O que seu João não sabia é que Dona Maria possuía dois defeitos graves: era um pouco negativa e muito insistente.

- Mas eu estou achando que o senhor está muito pálido!

- É mesmo? A senhora acha???

O que ninguém sabia, também, pelo menos não Dona Maria, é que o leiteiro era muito influenciável.

- É, o seu rosto está com um tom amarelado: um amarelo vivo!

- Meu Deus, mas o que a senhora acha que pode ser?

- Não sei. O que eu sei é que o meu cunhado uma vez ficou amarelo assim, como o senhor.

- É? E como ele está?

- Está melhor do que nós. Pelo menos assim espero.

- Como assim?

- Não sei, espero que esteja em um bom lugar.

- Por que, ele está hospitalizado?

- Não, está morto, mesmo! Espero que esteja no céu, brincando com os anjinhos... e mais coradinho, também.

- Nossa! Eu acho que não estou me sentindo muito bem!

- Pois é, corre para o hospital, talvez ainda dê tempo, né?

- Tempo do quê?

- Do senhor se salvar!

- Nossa, é isso mesmo que eu vou fazer!

Seu João conseguiu virar o carro com uma manobra só e subir a rua em três segundos, até hoje não se sabe como. Todos, inclusive Dona Maria, apostaram que ele morreria de qualquer jeito: ou de acidente de carro ou de doença grave.

Mas seu João não morreu nem de uma coisa, nem de outra. Está vivo e forte como nunca e continua a entregar leite para Dona Maria. E vai com uma camisa vermelha, que é para não dar a impressão de estar muito pálido.

 

Texto produzido em 2009

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"Pulmon@r" (arte digital)






Inspire. Contraia. Expire. Distenda.
Segue seu fluxo, a respiração. 
E o "livre" agir do pulmão. 

Recebe. Contrai. Expulsa. Distende.
Circulação. 
Assim age, "livremente", o coração. 

Mas, eis que foram feitos cativos, de repente. 
Contraiu- se a esperança. 
Distendeu-se o senso.
Expulsa a ignorância,
Preso o meu pensamento. 

Quando falta a liberdade, o sangue e o ar,
que a alma respire
para o coração se aliviar.

Precisamos prosseguir,
inspirar e pensar,
expirar e agir.
No fluxo, no ritmo, pulsar.
Entre estar e partir.
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"Boneca bipolar" (desenho sobre papel)


           

A Boneca

Olavo Bilac

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam.

Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca...
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Desenho: "Continuo" (caneta sobre papel)

      


Continuo escrevendo
com calos nas ideias
e sonhos nas mãos. 

Continuo desenhando
com calos nos olhos
e cores nas mãos. 

Porque, se paro,
perco as cores, os sonhos
Sobram os calos.
Por fim, me calo.

Mas, calar-me
não mais!
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"Máscaras ao sol" (foto)





Não mascare os seus sentimentos,
sob a escuridão. 
Não esconda os seus tormentos
Em amarga desilusão. 

Caso contrário, 
o passado fica pesado,
e o denso futuro vira apenas um cenário
para um ator medroso, calado.

Não mascare suas alegrias.
Não esconda seus encantos.
Deixe a feliz nostalgia
soprar leve futuro pelos cantos.

Mascare o rosto.
Desmascare o coração. 
Dê a si próprio o gosto
de uma bela atuação. 

E, para o presente,
Rindo ou chorando,
Vive, sente!
Sempre caminhando.


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"O jardim de Gabriel" (colagem digital)


De vez em quando, Deus envia anjos à terra. Eles vêm com os mais variados dons para nos ensinar um outro modo de ver a vida.

Foi assim que mais um Gabriel veio ao mundo. Era alegre, inteligente, bonito como todas as crianças são. Ele nasceu cego e aprendeu a “enxergar o mundo” pelo ponto de vista dos que o cercavam.

  ̶  Como é o sol, vovó?- perguntou.

 ̶  Ah, meu bem, é muito quente, escaldante. Deixa a gente com preguiça de tudo...

  ̶  É mesmo? Eu pensava que fosse diferente. Eu sinto um calor gostoso quando ele sai. Tenho vontade de nadar, chupar picolé e me sinto bem. Mas, se você diz que é assim...

Certo dia, perguntou ao pai:

 ̶   Papai, como é a chuva?

 ̶  Nossa, filho! É necessária, mas causa um transtorno: enchentes, atrapalha o trânsito e a vida de quem é atarefado, como eu.

 ̶   Ué, então tá. Sempre que chove, sinto cheiro de bolino de chuva e do café quentinho que a mamãe faz. Adoro dormir com o barulhinho da chuva caindo na janela!

O garoto não se cansava de perguntar. Era a sua forma de aprender, de conhecer:

 ̶  Mamãe, como são os pássaros?

 ̶  São bonitos, coloridos, filho. Mas, dentro das gaiolas, apenas. Soltos, eles são sujos e agressivos.

 ̶  Engraçado... todos os dias, à tarde, quando ouço a revoada de pássaros, fico tão feliz!

Gabriel, então, começou a se sentir diferente dos outros. Parece que a sua forma de “ver” as coisas estava errada. Tudo o que diziam que era ruim ele achava que era bom.

Um dia, o menino percebeu uma movimentação diferente na casa ao lado. Estava fechada, há muito tempo, e ali não morava ninguém.

 ̶  Mamãe, que barulho é esse?

 ̶  Ã‰ o novo vizinho, filho. Disseram que é um senhor distinto, filósofo.

  ̶  O que é um filósofo?

Esta pergunta ficou sem resposta. A mãe do pequeno curioso saiu apressada para preparar o almoço. E ele ficou com aquela interrogação saltitando na cabeça, durante a tarde toda.

 ̶  Vovó, o que é um filósofo?

 ̶  Não sei, meu bem.

Porém, Gabriel não se deu por satisfeito. Indagou o pai:

 ̶  Papai, o que é um filósofo?

 ̶  Ah, filho, é alguém que estuda muito.

 ̶  Sobre o quê?

E mais uma interrogação rodopiava. O pai saiu depressa, deixando-o sem resposta. O menino foi dormir cheio de sonhos e de motivação para aprender mais, no dia seguinte.

Pela manhã, ao brincar no jardim, ouviu alguém dizer:

  ̶  Olá! Vejo que também gosta de plantas. O meu nome é Dimas, sou o novo vizinho.

 ̶  Oi, seu Dimas, estava doido para te encontrar! – disse, radiante.

O velho sorriu e disse:

 ̶  Então, em que posso ajudar?

 ̶  A minha mãe disse que o senhor é filósofo. O que um filósofo faz? Ah, o meu nome é Gabriel.

 ̶  Um filósofo é alguém que pensa sobre as coisas, as pessoas, o tempo, e tenta ajudar o mundo com suas respostas.

 ̶  Hum, entendi! Então o senhor é bom em dar respostas?

 ̶  Eu tento, pelo menos.

 ̶  Que bom, porque eu sou bom em fazer perguntas!

 O garotinho lhe contou sobre o seu jeito de “enxergar” a vida e sobre como os adultos a enxergavam.

 ̶  O jeito como eu “enxergo” é errado?

 ̶  Gabriel, cada um tem um modo de ver a vida. Não existe certo e errado quando se trata disso. Apenas diferente. Vou te dar um exemplo. Hoje, para mim, o dia está mais tristonho, nublado. O sol, quando não aparece, deixa tudo mais triste. E para você, como o dia está?

 ̶  Para mim o dia não está triste. Não vejo o sol, mas sinto a brisa que me deixa leve e me dá vontade de tomar chocolate quente. Tudo isso me deixa feliz!

 ̶  Viu só? Cada um vê de uma maneira. Uns são mais tristes, outros felizes. Cada um com suas ideias. Porém, isso não significa que as pessoas serão sempre iguais. Elas podem mudar.

 ̶  Sei... – disse, atento.

A partir daquele momento, Gabriel passou a entender que o seu modo de “ver” não era errado e sim, feliz. Decidiu que levaria sua felicidade e a sua forma divertida de “ver” a todos que estivessem entristecidos. Resolveu ensinar a todos como “enxergar” a vida com outros olhos.


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 Foto: "Voa além"


                                         


Voo vai,
voo vem.
Voa longe.
Vai além. 

Além dos sonhos,
das nuvens carmim.
Céu risonho,
acima de mim.
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Desenho "Avess@s"






Prendo, solto.
Encolho, estico.
Mostro, escondo.
Dia, noite.
Sóbrio, bêbado. 
Engordo, emagreço. 
Guardo, doo. 
Compro, vendo.
Canto, emudeço.
Follow, Unfollow. 
ON, OFF.
Sim, Não. 
Escolhas inversas, 
às vezes perversas, 
meio às avessas,
para sábias e longas conversas.
Bem assim: 
- Mundo, o que você fez comigo?
- Eu ou você? 
- Já nem sei...
O poema e a autora são distintos. 


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"Orl@ iluminada" (colagem digital)
                

             Orlando passeava pela orla da praia ao final da tarde. Contemplava a paisagem, agradecido pela maré de sorte. Do alto de seus 40 anos, sentado na areia, pensava na linda namorada, Sandra, uma mulher que o completava e o amava. Mirava o mar, e agradecia pelo bom emprego: era sócio de um dos maiores escritórios de arquitetura do Rio de Janeiro; o seu escritório ficava de frente para o mar.

           Ficou um tempo por ali. Entrou no mar, tomou uma cerveja e foi para o seu duplex, no condomínio, dentro de seu carrão – que mais pareia o bat- móvel. “Como sou feliz! Se melhorar estraga!” - pensou, durante o trajeto. Depois de sua ducha, foi navegar em outros mares: os mares das redes sociais, aplicativos, chat’s. Mares, para ele, nunca “d’antes navegados”. Decidiu seguir o conselho de um amigo:

−Vai, Orlando, você precisa se modernizar. Baixe o aplicativo Surfer’s e me adicione. Adicione todos os seus contatos do telefone, também. É massa, cara!

Orlando seguiu o conselho. Ficou feliz da vida. Podia conversar com todos, a qualquer hora, somente num rolar de telas e apertar de botões. Primeiro, demorava ao digitar as frases; ficou meio perdido com o teclado digital e conversava com uma pessoa de cada vez. Depois, batia altos papos com grupos inteiros e digitar já era fácil. Parece que a maré de sorte continuava a trazer coisas boas.

Após o trabalho, já não ia mais relaxar na praia. A namorada e os amigos, só encontrava aos finais de semana. A sua vibe agora era virtual, e resolvia tudo pela internet. Esta mesma vibe o levou a perder a noção do tempo, muitas vezes. Normalmente, em ocasiões especiais.

Numa quinta-feira à noite, Orlando recebeu uma mensagem:

“Olá, sócio! Maré de sorte, hein? Só passei para te lembrar da apresentação de amanhã, com os chineses. A maior conta que já pegamos. Se prepara! Se eles gostarem do projeto, você vai poder tirar umas boas férias e curtir a sua bela!”.

Digitou, prontamente:

“Oi, Marcelo! Calma, querido! O projeto será apresentado dia 31 de dezembro, ainda. Tem tempo!”.

“Hoje são 30. Ixi! Acho que alguém andou tomando umas e outras e se esqueceu de olhar o calendário rsrsrs... Não tem como cancelar. Chinês, né, sabe como são? Se furarmos com eles, já era!”.

Era a primeira vez que aquilo acontecia. Orlando sempre foi muito organizado, responsável. “E agora? A apresentação é amanhã e eu nem terminei o projeto...”. Ele teclou rápido para Marcelo:

“Ok, sócio. Houve uma pequena confusão. Sem problemas, já está tudo pronto!”.

Neste momento, Orlando recebeu uma nova mensagem. Desta vez era Sandra: “Boa noite, meu amor! Como anda muito distraído, tô passando para te lembrar do Revéillon. Fiz as reserva no hotel, em Búzios, mas temos que sair amanhã. Assim, poderemos aproveitar mais!”.

Era a segunda vez, na mesma noite. Orlando sempre foi tão romântico, como poderia ter se esquecido do Revéillon? Os dois ficaram planejando o ano todo... “Nossa! Mais essa, agora! Eu me esqueci completamente!”

Parece que a maré tinha virado. Orlando já não era mais feliz. Se perdesse o projeto dos chineses, teria que vender o seu carro e o seu duplex para se manter. Se desistisse do passeio com Sandra, jamais seria perdoado: seria o fim do relacionamento. 

O pobre homem deixou o celular e foi arejar a cabeça. Resolveu entrar no clima de festa do final de ano. Bebeu uma lata de cerveja comum, para combater o nervosismo; depois, bebeu uma de cerveja preta, para ficar mais alerta. “Vou levar tudo na marola. Inventar duas boas desculpas, em tom de brincadeira. Eles vão me entender!”  ̶  pensou.

Orlando chegou à sala, cambaleando. Escorregou no sofá e pegou o celular. Digitou a primeira mensagem:

“Oi, amor, linda! Te amo! Então, sei que a gente planejou a viagem, eu estava sonhando com ela... Mas, o mané do meu sócio tá me pressionando com um projeto. Eu ainda não terminei, e é para apresentar amanhã. Eu tenho que obedecer, porque ele tem a maior parte na sociedade. Se o nosso escritório não pegar esta conta, não poderei juntar dinheiro para a gente se casar! Estou muito triste... Mas, eu apresentando o trabalho ficarei livre daquela mala por um bom tempo para ficar só com você.”.

Nem esperou a resposta e já teclou novamente:

“Olá, meu querido sócio! Sei que o projeto é para ser apresentado amanhã. Mas, a canseira da minha namorada está me pressionando para ir a uma viagem que planejamos o ano todo. Eu nem queria ir, porém, ela me disse que se não viajássemos, não viria morar comigo. Na verdade, eu disse que iria me casar, mas pretendo só morar com ela e ir deixando o tempo passar. No futuro, quem sabe rsrs... Então, te proponho o seguinte: eu passo para você a parte que já terminei, você complementa e faz a apresentação. Quando pegarmos a conta, você fica com a maior parte. Assim, ambos ficamos felizes. O que acha?”.

De repente, o celular começou a vibrar freneticamente. Eram as respostas chegando:

“Mané? Mala? Como assim? Que história é essa de casamento? Você teve o ano todo para planejar esse projeto e ele não está pronto??? ENTÃO, VOCÊ TEM QUE OBEDECER AO MALA DO SEU SÓCIO PORQUE ELE TEM A MAIOR PARTE NA SOCIEDADE??!! Eu vou apresentar o MEU PROJETO e ganharei a conta dos chineses! Quanto a você, considere-se LIVRE DE MIM, PARA SEMPRE!!! ARRUME OUTRO SÓCIO, BEM LONGE DE MIM!!!”.

“Ahn? Quem tá teclando? Mala... Marcelo? Essa mensagem não era para você... eu não penso isso...”   ̶   tentou se explicar, em vão.

“Ah, não? Conta outra, FALSO! E essa história de casamento??? Você nem gosta da Sandra para casar!”.

Novas mensagens, um arco-íris de luzes se acendeu no celular:

“Como assim, canseira da minha namorada? Você não queria ir??? ENTÃO, ERA SÓ ENROLAÇÃO??? CASAMENTO, NO FUTURO, TALVEZ??!! Que tipo de proposta é essa, MORAR JUNTO? Deixar o seu sócio fazer O SEU TRABALHO, QUE PAGARIA O NOSSO FUTURO CASAMENTO???!”

“Amor, linda! Não era para você ler isso, foi um engano!”.

“Sim, foi um engano. A NOSSA HISTÓRIA FOI UMA ENGANO!!! Mas ela não existe mais. Agora, você está solteiro para enrolar outra coitada e, quem sabe, planejar um FUTURO CASAMENTO COM ELA!!! NÃO ME LIGUE MAIS, ME ESQUEÇA!”.

Pobre Orlando! A maré virou mesmo. É muito difícil surfar na internet. Pena que aprendeu isso tarde demais...

Chegou dia 31 e lá estava ele: Orlando, caminhando pela orla da praia. Os foguetes estourando no céu, todos felizes à sua volta. Começou o ano com tudo, encerrou sem nada. Estava só, sem internet, com um copo de refri borbulhante na mão. Só, a pensar: “O ano que vem será melhor! Será o MEU ANO!”.

 


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"Velocidade" (acrílica sobre Canson)






A vida é um risco.
Um rabisco perfeito,
vivido pelas curvas sinuosas da estrada.

A vida é um risco
arriscado.
Vivido pelas curvas da estrada, 
ainda que sinuosas.

Será que ainda dá tempo 
de correr o risco de me arriscar? 
Será que ainda dá tempo 
de rabiscar bastante, 
com riscos de qualquer jeito?

Tomara que ainda dê tempo 
de riscar essa estrada 
e de me arriscar por ela.
Sendo feliz, 
sem saber como, onde e nem por que ela termina. 
É o preço do risco...

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"Amor universal" (montagem digital)


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"O relógio do vovô" (foto)







Mais um dia para sorrir, 
menos um para chorar. 
Mais um dia para ir,
menos um para ficar. 

Mais uma hora para se divertir, 
menos uma para sofrer.
Mais uma hora para partir, 
menos uma para viver.

Mais um minuto para ser,
menos um para duvidar.
Mais um minuto para beber,
menos um para se preocupar.

Mais, menos.
Dia, horas e minutos. 
O relógio ainda não parou...

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Sobre mim

Tiara C. França é goianeira (metade goiana, metade mineira), criada em Goiânia e Formiga.

Descobriu o gosto pelas Artes Visuais desde os 6 anos de idade, quando se pegou reproduzindo personagens de HQ's, de maneira autodidata e espontânea. Especializou-se em Ensino de Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Começou a escrever textos literários ainda na escola. Formou-se em Letras pelo Centro Universitário de Formiga (UNIFOR-MG). Já teve contos publicados em outros sites e em coletâneas.

O blog foi criado no início da pandemia, em abril de 2020. Foi uma tentativa de tornar a fase da pandemia do COVID-19 um pouco mais leve, reflexiva e divertida para as pessoas. E perdura até hoje!

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