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VIRTUALIDADES

Ela foi, com a família, à cerimônia de graduação. Fez as unhas, arrumou o cabelo, foi maquiada. Vestiu um vestido com alças de metal (correntes).

 

Antes da sessão de fotos, da primeira parte da festa, uma das alças se rompeu. O pai teve que ir a sua casa, trazer um alicate pra arrumar, pois não havia outra roupa. Ele foi e tudo se ajeitou. A sessão de fotos aconteceu e, quem soube, foram os familiares.

 

A segunda parte foi a colação de grau. Vestiu uma beca em número maior. Esforçou-se para não cair. Havia um lugar vago no palco. Sentou-se, em frente ao ventilador. O seu penteado se desmanchou em questão de minutos. Foi chamada para receber o canudo. Quase caiu no momento em que recebeu o diploma, mas não aconteceu.

 

Curiosamente, o sorriso permanecia. Usou aparelho ortodôntico por 3 anos e foi retirado durante o período da formatura. "Eu sei que está tudo difícil, mas não quero saber disso. Quero mais é sorrir" - pensou a formanda.

 

"Será que ela sabe que, terminado o curso, se inicia a busca por emprego? Que a emissão do diploma leva tempo? Que, para conquistar um salário digno, mestrado e PHD são exigências? Será que conto isso a ela, ou deixo que descubra? Algo me diz que ela já sente isso" - pensou o bem-te-vi, sem cerimônia.


 




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Eis que Jesus,

descido do alto,

pegou a sua pena

e usou sua licença poética.

E disse: 

"Eu sou especial,

Sou autíssimo!"










Poesia produzida no Centro de Atenção Psicossocial de Formiga (CAPS) Formiga- Minas Gerais






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"Máscaras ao sol" (foto)





Não mascare os seus sentimentos,
sob a escuridão. 
Não esconda os seus tormentos
Em amarga desilusão. 

Caso contrário, 
o passado fica pesado,
e o denso futuro vira apenas um cenário
para um ator medroso, calado.

Não mascare suas alegrias.
Não esconda seus encantos.
Deixe a feliz nostalgia
soprar leve futuro pelos cantos.

Mascare o rosto.
Desmascare o coração. 
Dê a si próprio o gosto
de uma bela atuação. 

E, para o presente,
Rindo ou chorando,
Vive, sente!
Sempre caminhando.


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Desenho "Avess@s"






Prendo, solto.
Encolho, estico.
Mostro, escondo.
Dia, noite.
Sóbrio, bêbado. 
Engordo, emagreço. 
Guardo, doo. 
Compro, vendo.
Canto, emudeço.
Follow, Unfollow. 
ON, OFF.
Sim, Não. 
Escolhas inversas, 
às vezes perversas, 
meio às avessas,
para sábias e longas conversas.
Bem assim: 
- Mundo, o que você fez comigo?
- Eu ou você? 
- Já nem sei...
O poema e a autora são distintos. 


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"Velocidade" (acrílica sobre Canson)






A vida é um risco.
Um rabisco perfeito,
vivido pelas curvas sinuosas da estrada.

A vida é um risco
arriscado.
Vivido pelas curvas da estrada, 
ainda que sinuosas.

Será que ainda dá tempo 
de correr o risco de me arriscar? 
Será que ainda dá tempo 
de rabiscar bastante, 
com riscos de qualquer jeito?

Tomara que ainda dê tempo 
de riscar essa estrada 
e de me arriscar por ela.
Sendo feliz, 
sem saber como, onde e nem por que ela termina. 
É o preço do risco...

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"Amor universal" (montagem digital)


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"O relógio do vovô" (foto)







Mais um dia para sorrir, 
menos um para chorar. 
Mais um dia para ir,
menos um para ficar. 

Mais uma hora para se divertir, 
menos uma para sofrer.
Mais uma hora para partir, 
menos uma para viver.

Mais um minuto para ser,
menos um para duvidar.
Mais um minuto para beber,
menos um para se preocupar.

Mais, menos.
Dia, horas e minutos. 
O relógio ainda não parou...

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"Autorretrato" (monotipia sobre papel Canson)





Trinta e seis,
outra vez...
Vela, bolo, abraço.
Dúvida, incerteza. 
Frio, tristeza.
Embaraço, balanço. 
O que fiz,
quis e não quis.

Trinta e seis,
mais uma vez...
Um novo sonho, 
novo sopro.
Continuar ou começar. 
A mesma história contada de novo,
do novo, quero outra e mais uma vez.


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 "Simbiose"



Olhos vazios,

soltos a procurar

alguma paisagem

onde possam se encontrar.

 

Porém, o que encontram

é só miragem.

E se assombram,

pois não enxergam a verdade.

 

No fundo, o que eles buscam

é só descansar.

No raso, se assustam,

porque não sabem nadar.


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Métric@s (arte digital)



Carregando...
Cansaço, tensão, desafeto.


Processando...
Informação, discussões, ansiedade.

A sua conexão caiu. Tente novamente...


Carregando...
Disposição, paz, afeto.


Processando...
Sentimentos, concórdia, esperança.

A sua conexão caiu. Acesse a Central de Ajuda.


Aguarde um momento...

A sua conexão foi restaurada com sucesso! 
Use-a para o bem ou para o mal...
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"Olhos d'água" (acrílica sobre papel cartão)






O mundo carece de afeto. Muitas vezes, o maior cuidado é aquele que damos a nós mesmos. Por isso, é preciso afetuar-se...


Afetuando-se 

Quando o vento nos embala,
nos sonhos noturnos,
nos suspiros profundos,
é melhor deixar fluir a fala.

Dizem que “quem cala consente”.
Mas isso é uma falácia,
pois há maior eficácia
em desafogar a mente.
O silêncio só é importante,
quando é para ouvir o outro.
Aí há um encontro:
coração e mente, guardados numa estante.

Depois vem o alívio,
quando todos se entendem,
e não mentem;
calmaria e, para os olhos, colírio.



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Óleo sobre tela "Realidade Visual"

 



Descobri que era portadora de uma doença crônica na córnea, chamada Ceratocone, aos 21 anos. Hoje tenho 36 e ela já se encontra estabilizada. Isso depois de muitas tentativas frustradas de adaptação a lentes de contato, colírios, exames, óculos, além da própria falta de informação.

Quando o diagnóstico foi feito, os tratamentos eram pouco avançados. Eu alternava a escola com minhas aulas de pintura. A Arte era um refrigério para mim: me empolgava, aprendendo a pintar, dentro e fora do atelier. Notei, em uma das vezes que guardava as minhas tintas e pincéis, que a visão estava embaçada, um pouco desfocada. Decidi ir ao oftalmologista, pensando que fosse apenas algo simples. Foi então que o médico me disse: “Você tem Ceratocone.”

Nunca tinha ouvido falar sobre isso. O médico me explicou que se tratava de uma alteração na córnea, crônica, que só poderia ser corrigida de duas formas: um transplante ou lentes de contato rígidas. O acompanhamento médico deveria ser feito por toda a vida, mesmo com o transplante. 

Disse-me que as causas para o seu desenvolvimento eram desconhecidas, associadas ao código genético. Também mencionou que eu poderia ficar cega, se não me tratasse e que, se a doença tivesse sido detectada em minha infância, certamente eu já estaria cega.

Tentei absorver tudo, em vão. Tudo do que me lembrava e ecoava em minha mente era a palavra “cegueira”, e que estava associada a dois momentos de minha vida: a infância e a juventude.

Foi durante a infância que descobri minha habilidade para o desenho, de forma espontânea e autodidata. Comecei a reproduzir o personagem Anjinho, dos quadrinhos da Turma da Mônica. Desde então, não parei mais de desenhar. Ao colorir, usava lápis preto ou de cor. Na juventude, aprendi que os meus desenhos poderiam sair do papel e estampar telas, cobertas com pinceladas das mais variadas nuances. Todas as formas de me libertar estavam presas ao temor dela, da “cegueira”. E isso me cegava a alma...

Hoje o tratamento já evoluiu, e sei que, no meu caso, o tratamento evita que tudo o que eu temia aconteça. Eu continuei a desenhar, pintar. Em 2016, decidi retratar tudo isso através da tela “Abrir de olhos”.

Trata-se da representação simbólica de um aparelho para medir acuidade visual, utilizado no Brasil. Quando se submete ao exame, o paciente é posicionado diante de duas lentes, e vê imagens de uma paisagem (uma casinha); o médico, então, pede que “abra bem os olhos”, enquanto a máquina registra o resultado. No caso desta pintura, a primeira lente retrata um tema feliz e acolhedor, em tons quentes, simbolizando o estado emocional antes do paciente receber o diagnóstico de doença visual; a segunda, simboliza uma cena triste e sombria, em tons frios, relacionada ao estado emocional após o diagnóstico. O paciente não só “abre os olhos” para o diagnóstico da doença, como pode “abrir os olhos” de outras pessoas para o cuidado com a própria saúde visual. 

Tenho mais informações sobre minha doença, formas de tratamento e cuidados que eu devo ter em relação à saúde dos meus olhos. E, embora não possa abri-los e dizer a mim mesma que tudo foi só um pesadelo, posso me abrir e dizer que olho o meu pesadelo de uma forma diferente. Uma forma libertadora!



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Sobre mim

Tiara C. França é goianeira (metade goiana, metade mineira), criada em Goiânia e Formiga.

Descobriu o gosto pelas Artes Visuais desde os 6 anos de idade, quando se pegou reproduzindo personagens de HQ's, de maneira autodidata e espontânea. Especializou-se em Ensino de Artes Visuais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Começou a escrever textos literários ainda na escola. Formou-se em Letras pelo Centro Universitário de Formiga (UNIFOR-MG). Já teve contos publicados em outros sites e em coletâneas.

O blog foi criado no início da pandemia, em abril de 2020. Foi uma tentativa de tornar a fase da pandemia do COVID-19 um pouco mais leve, reflexiva e divertida para as pessoas. E perdura até hoje!

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