A enchente
Bom, sabe-se que o verão é marcado por um longo período chuvoso. Chuva, até que nos remete a coisas boas, como assistir a um filme comendo pipoca. Ah! Tem, também, um bolinho com nome de chuva: (bolinho de chuva, delicioso, particularmente!).
Pois é, convenhamos que, para escoar a água e evitar enchentes, o ideal é construir bueiros nas ruas. Porém, o detalhe de que não podem ser entupidos passa despercebido.
Essa história é a respeito de uma enchente que começa de um jeito diferente...
Dia 24 de dezembro de 1999.
Dona Maria e, para variar, todos da casa estavam mobilizados na preparação da ceia de Natal.
— Zé, você vai buscar as cervejas, o gelo, o refrigerante, os salgadinhos.
— Espera aí, Maria! Anota tudo num papelzinho, porque você sabe que eu me esqueço. Anote o horário, o nome das pessoas, o que vou buscar, onde eu vou buscar.
Seu Zé, o marido da anfitriã, conservou os velhos hábitos de organização que aprendera como bancário. Era o oposto dela. E a dona de casa não tinha muita paciência.
— Meu “filho”, é fácil! Você não está vendo que eu estou assando o peru, fazendo a farofa, a sobremesa, desde ontem? Não tive tempo nem de fazer as unhas!
— Tá bom... é... só escreve onde eu tenho que buscar o que você pediu. Aqui: o B-L-O-C-O e a C-A-N-E-T-A.
Ela escrevia, muito a contragosto.
— O que é isso aqui que você escreveu? Não cortou o “t”, pôs o “z” no lugar do “q”.
— Pode parar! Você entendeu o que está escrito???
— É... entendi.
— Então, PRONTO! Pode ir que você já está atrasado!
A cozinha se parecia com uma sinfonia orquestrada: o peru assava, enquanto a batedeira preparava o glacê, ao mesmo tempo em que a cebola, o bacon e o tomate eram cortados.
O restante da equipe — as filhas — cuidava da limpeza da casa. Cada uma a seu jeito, claro!
Terminados os preparativos, casa arrumada, todos compostos em seus postos, era hora da festa.
Os festejos tiveram início com as baladas de Roberto Carlos, salgado e refrigerante.
Terminaram com cerveja, Campari, “Jorge e Mateus”, farofa e peru.
Abraços, alegria, presentes, oração.
Uma bela festa!
Silêncio na casa. Mais abraços. Festança acabada.
Dona Maria dormindo de um lado, seu Zé, de outro, e a melodia de roncos se completava.
As “Belas adormecidas”, do outro lado da casa, estavam a sono solto.
Foi lá pelas 2 horas da manhã que, por causa das cervejas a mais, dona Maria resolveu ir ao banheiro.
Ao colocar os pés no chão, ouviu um sonoro "ploft”.
“O que é isso? Água?” — pensou.
Em meio ao quarto escuro, a dona de casa saiu “nadando” até o banheiro, acendeu a luz e se deparou com tudo repleto de água, exceto a cama.
Exclamou:
— Zé, acorda!
— Hum... quem morreu?
— Olhe o nosso quarto! Está repleto de água!
A casa alagada
Seu Zé rolou para o outro lado em um segundo e aventurou-se a nadar pela casa. Fez uma vistoria no local: metade dele estava alagado.
“Meu Deus! Não está chovendo... o que é isso?”
Zé chamou:
— Maria, vai ao porão pegar uns baldes, enquanto eu vejo de onde está saindo essa água.
Dona Maria saiu, meio nadando, meio correndo, apressada.
Desceu até o porão, mas esqueceu que a porta estava trancada e voltou para buscar as chaves.
“Nunca nadei tanto, nem durante as aulas de natação”, pensou.
Abriu a porta e o porão estava alagado. A cadelinha de estimação estava lá, nadando também!
Dona Maria pegou todos os baldes e colocou-os do lado de fora. Pegou a cadela e colocou-a em um dos baldes.
Com os outros, ia retirando a água do porão e jogando-a no quintal.
Quando terminou a operação, quase se esqueceu de que a cadelinha continuava nadando dentro de um balde que se encheu de água. Mas conseguiu retirá-la com vida.
Seu Zé disse, desesperado:
— Ande, “minha filha”! Aqui em cima está alagado! — chamou seu Zé.
Então, nadou mais um pouco com os baldes.
Lá ficaram os dois, por duas horas, retirando a água da casa.
Quando conseguiram, seu Zé observou que o ralo de um dos banheiros estava entupido.
Abriu-o com suas ferramentas.
E desvendou o mistério: o cano estava entupido com alguns objetos.
Depois disso, foi o momento de salvar o que havia se molhado: móveis, roupas, o disco do Roberto, entre outras coisas.
Várias calorias a menos e exaustos, foram dormir.A cama permaneceu intacta, para sorte deles!
Lembram-se de como ocorrem as enchentes, não é? Decoraram a fórmula?
Essa enchente, ocorrida de dentro para fora, obedeceu à mesma regra.
Então, a família aprendeu o que todas as outras se esquecem: a educação e o zelo são aprendidos em casa e, consequentemente, aplicados fora dela.
Fácil, não é?
Ah, as “Belas adormecidas”? Acordaram no dia seguinte sem entender nada.

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