Abrir de olhos
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| Óleo sobre tela "Realidade Visual" |
Descobri
que era portadora de uma doença crônica na córnea, chamada Ceratocone, aos 21
anos. Hoje tenho 36 e ela já se encontra estabilizada. Isso depois de muitas tentativas
frustradas de adaptação a lentes de contato, colírios, exames, óculos, além da própria falta de informação.
Quando
o diagnóstico foi feito, os tratamentos eram pouco avançados. Eu alternava a
escola com minhas aulas de pintura. A Arte era um refrigério para mim: me
empolgava, aprendendo a pintar, dentro e fora do atelier. Notei, em uma das
vezes que guardava as minhas tintas e pincéis, que a visão estava embaçada, um
pouco desfocada. Decidi ir ao oftalmologista, pensando que fosse apenas algo
simples. Foi então que o médico me disse: “Você tem Ceratocone.”
Nunca
tinha ouvido falar sobre isso. O médico me explicou que se tratava de uma alteração
na córnea, crônica, que só poderia ser corrigida de duas formas: um transplante
ou lentes de contato rígidas. O acompanhamento médico deveria ser feito por
toda a vida, mesmo com o transplante.
Disse-me que as causas para o seu desenvolvimento eram desconhecidas, associadas ao código genético. Também mencionou que eu poderia ficar cega, se não me tratasse e que, se a doença tivesse sido detectada em minha infância, certamente eu já estaria cega.
Disse-me que as causas para o seu desenvolvimento eram desconhecidas, associadas ao código genético. Também mencionou que eu poderia ficar cega, se não me tratasse e que, se a doença tivesse sido detectada em minha infância, certamente eu já estaria cega.
Tentei
absorver tudo, em vão. Tudo do que me lembrava e ecoava em minha mente era a
palavra “cegueira”, e que estava associada a dois momentos de minha vida: a
infância e a juventude.
Foi
durante a infância que descobri minha habilidade para o desenho, de forma
espontânea e autodidata. Comecei a reproduzir o personagem Anjinho, dos
quadrinhos da Turma da Mônica. Desde então, não parei mais de desenhar. Ao
colorir, usava lápis preto ou de cor. Na juventude, aprendi que os meus
desenhos poderiam sair do papel e estampar telas, cobertas com pinceladas das
mais variadas nuances. Todas as formas de me libertar estavam presas ao temor
dela, da “cegueira”. E isso me cegava a alma...
Hoje
o tratamento já evoluiu, e sei que, no meu caso, o tratamento evita que tudo o
que eu temia aconteça. Eu continuei a desenhar, pintar. Em 2016, decidi retratar
tudo isso através da tela “Abrir de olhos”.
Trata-se
da representação simbólica de um aparelho para medir acuidade visual, utilizado
no Brasil. Quando se submete ao exame, o paciente é posicionado diante de duas
lentes, e vê imagens de uma paisagem (uma casinha); o médico, então, pede que “abra
bem os olhos”, enquanto a máquina registra o resultado. No caso desta pintura, a
primeira lente retrata um tema feliz e acolhedor, em tons quentes, simbolizando
o estado emocional antes do paciente receber o diagnóstico de doença visual; a
segunda, simboliza uma cena triste e sombria, em tons frios, relacionada ao
estado emocional após o diagnóstico. O paciente não só “abre os olhos” para o
diagnóstico da doença, como pode “abrir os olhos” de outras pessoas para o
cuidado com a própria saúde visual.
Tenho
mais informações sobre minha doença, formas de tratamento e cuidados que eu
devo ter em relação à saúde dos meus olhos. E, embora não possa abri-los e dizer a mim mesma que tudo foi só um pesadelo, posso me abrir e dizer que
olho o meu pesadelo de uma forma diferente. Uma forma libertadora!

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